Anna Karenina 2013

Anna Kareninaanna1Aaron-Johnson-Anna-Karenina Alguns dizem que Anna Karenina é o maior romance de todos os tempos; outros consideram-na a maior novela trágica de todos os tempos; outros, ainda, a maior história de amor de todos os tempos. Eu ratifico todas as anteriores e acrescento que é meu livro favorito de todos os tempos. E, como eu esperei TODOS OS TEMPOS para esta estreia (que, ao fim, ainda não ocorreu e tive de assistir direto em vídeo), permitindo-me inclusive reler a obra em sua totalidade após 10 anos, neste post serei a mais dura crítica de todos os tempos. Exceto, é claro, por Tolstoi, que renegou e chegou a queimar o original deste magnânimo romance.

Queridos leitores, vocês ficaram irritados com a minha repetição proposital de termos? Pois imaginem meu estômago já irritado com a gastrite pós-Carnaval dada a reiteração de imagens como os trens, o sótão do palco e as personagens-marionetes…! Uma vez que muita gente já viu versões anteriores do filme, leu a obra ou versões compactas da mesma, digamos que ficar antecipando o desfecho trágico da personagem central não é muito original.

O elemento “teatro” mostrou-se um desconforto para mim ao longo das duas horas de filme. Fato é que propor uma nova versão de um filme já dirigido por Bernard Rose e interpretado por atrizes como Vivien Leigh, Greta Garbo e Sophie Marceau é, por si só, um ato de extrema bravura e ousadia. Não há mal algum em quebrar esse cânon com alguma irreverência… Aliás, isso dos palcos, da encenação, da plateia sempre assistindo tinha de tudo para estilizar harmoniosamente a ideia de que tudo o que concerne àquela sociedade, a do século XIX, é simulação e protocolo e, no entanto… Desestruturou todo o filme. E isso, creio, ocorre devido conflito direto com o Realismo-Naturalismo, a forma original no qual esta obra prima foi concebida. Tirar a moldura de um quadro nunca foi tão desastroso quanto nesta versão… Pior ainda pois a nova moldura/forma chama mais a atenção do que o quadro/enredo em si.

Ao enredo, portanto. Que se passa com as histórias paralelas? Digo, Kitty/Kostya, Dolly/Stiva e Karenin/Lydia. Tendo relido o romance há menos de um mês, tenho de conceder ao filme o mérito de ter mantido os diálogos originais em peso, sem muitas adaptações de tom ou vocabulários. Kostya dizendo ao Stiva que não roube doces é excelente, assim com Vrosky culpando Ana por seu desejo sempre reavivado pelo comportamento ambivalente da grande dama. Amo a citação: “Paz nunca teremos. Para nós, está destinada imensa miséria ou indizível felicidade”. Mas não posso perdoar a exclusão de vários elementos: a constante crise existencial de Kostya, que será posteriormente espelhada à de Ana é o principal. O início conturbado do casamento de Kostya e Kitty é outro ponto e o aspecto englobante de que projetar a própria felicidade em outro ser humano traz consequencias desastrosas para um casal é algo que não pode faltar para a apreensão desse romance. Anna crê que tudo sacrificou em nome de seu amor por Alexei e espera uma reciprocidade à altura, enquanto que Kostya deseja que Kitty forneça sentido à sua vida e Kitty, por sua vez, exige devoção total e eterna veneração de seu marido… O menos afetado por esse turbilhão de frustrações é o insípido Karenin e, aqui, o roteirista acrescentou um elemento novo que resultou contraditório – Cristão ortodoxo e burocrata, Karenin é visto em duas cenas desenrolando parcimoniosamente uma camisa de vênus. Oras, sabemos que a doutrina cristã é contra qualquer forma de contracepção e mais: Karenin não pode ser o perfil de indivíduo que tem relações sexuais por prazer somente. Isso entra em desacordo com a configuração da personagem! Karenin é a quintaessência do tédio, do previsível, do monótono… O que torna ainda mais fascinante o interesse da igualmente insípida Condessa Lídia pelo mesmo.

No âmbito do monótono, aliás, temos um bom exemplo de referência: Aaron Johnson como Vronsky. Nas palavras do príncipe Tchiervatsky, pai de Kitty, a melhor definição para o exemplo de cromossomo Y apresentado neste filme é “um peralvilho”. Não podemos conceber um rapaz como esse motivando abandono de um filho primogênito, uma vida absolutamente estilosa, riqueza material, status social elevado… ALTAMENTE IMPROVÁVEL. E Ana com elementos de comédia tampouco coube nesse contexto de entrega passional, desafio à opressão, sacrifício e reparação. Sinto muito, Keira, mas como G., Elizabeth e Cecília você me inspira imensa admiração, como Anna o que senti foi uma descontente compaixão por uma interpretação equivocada sem dúvida conduzida por um diretor com demasiada confiança em você, o suficiente para acreditar que sua interpretação idiossincrática seguraria quaisquer falhas do filme com a maior desenvoltura. Ás vezes, segurança demais compromete a performance…

Muita gente tem se queixado de que Os Miseráveis é uma história muito forte e o formato musical reveste tudo de um artificialismo prejudicial ao tema. Contudo, Anna Karenina consegue a dolorosa proeza de afogar-se mais profundamente no mesmo lago escuro e sem cisnes: não é possível se entregar a um espetáculo cujas cordas das marionetes estão sempre visíveis ao espectador. Falo sem o elemento metáfora…! Eu estou vendo que são marionetes, não é necessário evidenciá-las, ó Diretor desejoso de insultar minha inteligência! Sem mencionar aquela profusão de cores e mais cores em tons avermelhados, semelhantemente a outra versão de romance trágico que tropeça na mesma pedra, Moulin Rouge, enfim, é lamentável. Não pude dormir à noite sem antes assistir a um excerto do filme dirigido por Bernard Rose. Nós sempre teremos São Petersburgo.

Como amante generosa que sou, jamais deixaria um filme baseado em meu romance de cabeceira sem ressaltar os diversos elementos que apreciei, embora o conjunto tenha me decepcionado imenso. São eles:
* Figurino e joias;
* Presença de atores de suporte charmosos, como Holliday Grainer;
* Diálogos de fundo, canções dos mujiques e documentos em russo perfeito;
* Trilha sonora impecável, embora ignore Tchaikovski (provavelmente pois já foi muito explorado em versões anteriores);
* Pela primeira vez, vi transportada para um filme a rivalidade acirrada entre peterburguenses (“afetados/aristocráticos”) e moscovitas (“provincianos/caipiras”) que persiste até hoje.
* A valsa entre Anna e Vrosky, que tem vários toques e recolhas de mãos simulados e milimetricamente ensaiados, tal qual um jogo de flerte/sedução em todo o seu esplendor de artificialismo e ausência de espontaneidade. A dança termina com Anna separando-se abruptamente de seu parceiro para não humilhar ainda mais a rival (já derrotada) e, ao buscar sua imagem no espelho, a heroína trágica vê uma locomotiva acelerada se aproximando – a meu ver, dever-se-ia manter esta única referência a trens;
* Embora o elemento “palco” tenha-me incomodado imensamente, não sou vingativa a ponto de não reconhecer o aspecto potencialmente artístico do teatro neste filme. A condição humana nada mais é do que um palco caótico, no qual os atores entram em cena sem roteiro, com diretor pouco ou nada acessível e, para completar, sem conhecimento prévio de qual o gênero representado. Tragédia? Comédia? A única certeza são as marionetes e a plateia. Esses não falham NUNCA.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: