Fanfiction: de Cervantes aos Cinquenta Tons de Plágio

Fanfiction, um subgênero da Literatura que remete ao século dezessete, quando um Cervantes indignado retomou seu mais célebre romance, Dom Quixote de La Mancha, após surgir uma continuação apócrifa de autoria do mal intencionado Avellaneda, é o tema englobante mais presente nas listas de mais vendidos das três maiores livrarias de São Paulo.

Dom Quixote é uma grande obra dividida em dois volumes, publicados com um intervalo de dez anos entre si. Ao final do primeiro tomo, temos uma unidade completa de enredo: o retorno do herói injuridado, ferido e desgastado fisicamente a seu lar encerra uma jornada de aventuras, desventuras e non sense não apenas parodiando as novelas de cavalaria, gênero ultraexplorado na Idade Média, mas também apresentando de forma inédita o grande avanço do romance moderno – o diálogo entre gêneros, formas e obras anteriores.

Pouco após a popularização deste primeiro volume, publicado em 1604, eis que um autor de estilo totalmente distinto ao gênio de Cervantes apresenta uma série de novas aventuras do Cavaleiro da Triste Figura e seu fiel escudeiro Sancho Pança, de qualidade notadamente inferior e até mesmo incoerente em relação à configuração das personagens. Estava criada a primeira polêmica derivada de uma fanfiction. Possesso, Cervantes dedicou os dez anos seguintes a fim de arrematar a saga do Quixote da maneira mais original e bem elaborada possível, tendo inclusive o cuidado de matar a personagem central para que Avellaneda ou outro não mais pudesse desfrutar do mérito de sua obra.

Quatrocentos anos adiante, a fanfiction atingiu o auge em meados dos anos 2000, durante a saga Harry Potter. De autoria de leitores ansiosos de todo o mundo que buscavam propor a continuidade da obra de JK Rowling, ou mesmo adivinhá-la, e aproveitando também a facilidade das plataformas das mídias sociais, o formato semelhante à paródia se fazia mais e mais presente à medida que os livros se aproximavam do último volume, Harry Potter e as Relíquias da Morte.  Fãs matavam personagens, ressuscitavam outras, propunham diálogos emocionados entre os casais com declarações de amor inusitadas… Houve uma profusão de criatividade e o subgênero firmou seu espaço como formato a ser explorado nos anos vindouros.

A próxima mega saga a conquistar milhões de leitores é de autoria de Stephenie Meyer, Crepúsculo. Os quatro livros e cinco filmes renderam muitos lucros para a autora, mas não tanto quanto à escritora da fanfiction da saga, E L James, que montou o esboço da trilogia Cinquenta Tons de Cinza como paródia do casal central de Crepúsculo, embora acrescentando algumas idiossincrasias. O que a princípio já era uma obra derivada de outra, agora ganhou inúmeras versões risíveis e oportunistas, como Cinquenta Tons do Sr. Darcy. Essa suposta paródia representa nada mais do que um duplo plágio – sem acrescentar elemento algum, limita-se a reproduzir as principais cenas do enredo de E L James substituindo os nomes pelos das personagens do romance ícone de Jane Austen, Orgulho e Preconceito, publicado em 1813, não atentando sequer à indisponibilidade de certos itens no século dezenove, como piercings, por exemplo.

Quatrocentos anos se passaram e permanece a tendência ao oportunismo por meio do cânon, falta de criatividade de certos autores e ausência de critérios de análise de alguns leitores.  Resta uma possibilidade: resgatar o cânon para que, ao menos, o leitor esteja familiarizado com a obra original a ser desvirtuada. Porque, aparentemente, desde Avellaneda o engenho dos autores das paródias só diminuiu.

 

 

 

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