Medo

Ontem à noite, voltando de uma noite esplendorosa com minhas novas amigas, peguei o último trem, o último ônibus e ‘ bora pra casa à 1:00 da manhã. Descendo a av. Joaquim Nabuco rumo à minha casa, considerando o desvio que tenho de fazer pois o supermercado já havia fechado, deparei-me com uma massa volumosa que primeiramente supus ser um cão abandonado embalado em uma mescla de jornais velhos, cobertores pútridos e papelão atrás de uma banca de jornal. Tratava-se de um ser humano dormindo na rua, absolutamente encolhido não pelo frio (fazia uns 30 graus)  mas pelo medo, desconforto, talvez também o efeito de algum “aditivo”, enfim, é de cortar o coração.

Desde bem pequena, nada me apavora tanto quanto um morador de rua. Não, eu não tenho medo de ser atacada por um sem-teto. Desço a Joaquim Nabuco, cruzo a Santo Amaro e a Vicente Rao sozinha, altas horas, em um pique só (e boas noções de body combat para qualquer eventualidade). Não permito a nada/ninguém tolher meu direito de ir e vir.  Eu tenho sim um medo visceral de vir algum dia a ser uma moradora de rua. Essa é uma das razões pelas quais, independente do vencimento e dos passivos,  jamais me permiti gastar a totalidade do meu salário. Poucas coisas me apavoram tanto quanto a visão de um ser humano dormindo no chão, desassistido, sem perspectiva de obter uma refeição, sem condições de exercer uma higiene mínima, desprezado pelas autoridades, invisível aos olhos de muita, muita, muita gente, alvo de indiferença e brutalidade. Aliás, a cena mais forte de American Psycho para mim foi quando a personagem interpretada pelo Christian Bale assassina um morador de rua e seu cão. Também senti um impacto terrível no desfecho do conto de Julio Cortázar “Lejana”  (  http://www.ciudadseva.com/textos/cuentos/esp/cortazar/lejana.htm ).

Sempre tive pavor de perder qualquer emprego, por mais patético e desgastante que fosse. Quando um amigo me conta que ficou desempregado ou sei que uma amiga exerce uma atividade artística belíssima porém não remunerada, saio de minha zona de conforto de tal forma que chego a perder o sono. Por favor, não precisam me chamar de dramática/exagerada/louca/obsessiva-compulsiva/control freak/Christian Grey versão feminina e latinoamericana pois, como eu disse mais acima, é um medo visceral e, como tal, irracional e projetado em diversas situações.

Esse medo também alimenta minhas ambições profissionais,  a obsessão por conforto e certos itens domésticos atípicos. Quem já foi à minha casa sabe que mal se enxerga o chão abaixo tantas camadas de tapetes, o colchão sob os edredons percal 180 fios e as miniaturas de casas da Barbie, Polly e dos bonequinhos da Disney e do Harry Potter (que tesouro…!). Tenho milhares de exemplares de Casas Vogue, Casa & Jardim, Máxima Interiores,  Country Homes e outras.  Amo viajar e sempre busco hotéis com ar mais caseiro, de preferência com poucos andares.  Quando viajo, tenho mais receio de sair à noite, desorientar-me e não conseguir voltar ao hotel do que ânsia de não perder um segundo destinado a conhecer melhor o local.

That´s all, folks. Welcome to my world. Medos viscerais, é o que há. E os de vocês, quais são?

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