Adolescência

Ontem peguei a lotação Berrini dez minutos mais cedo (nota: só em São Paulo você sai com dez minutos de antecedência pois precisa chegar ao destino final uma hora antes).  O itinerário corta a ETEC Roberto Marinho, que possui os cursos de moda e design interior. Logo, abaixo da Ponte Morumbi, toda a sorte de alunos, alunas e andróginos adentrou o veículo.

Não que eu me incomode com essa ruidosa galera cool, não, longe disso. Há pouquíssimo tempo (digo, uns dez anos) eu era até um deles.  O problema é que…  E esqueci como era ser, “tipo assim”, como  eles. Esqueci como era viver sem me preocupar com IPTU, IPVA, licenciamento do carro, preço da cesta básica, horário do último trem, será que o décimo terceiro vai ser suficiente para as despesas de fim de ano, exame periódico, enxaqueca racha-crânio, enfim. Como era bom querer morrer porque a nota de corte para a carreira de Direito subiu dois décimos, chorar porque a Britney traiu o Justin com o Nick Carter, pedir para mudar de sala pois a turma não tinha nenhum BFF, cabular a aula de Educação Física para adiantar a lista de exercícios de Física (sorry, mas Educação Física não cai no vestibular…).

Bem à minha frente, providencialmente, sentou-se uma mocinha morena de All Star, bolero rendado preto e cabelo crespo relaxado. Que inferno era não ter dinheiro/conhecimento para dar um tratamento decente aos cabelos. Como minha mãe tinge os meus cabelos desde os dez anos (em uma vã tentativa de que, ao menos em aparência, eu me assemelhasse mais a ela) eu sempre tive um cabelo crespo, armado e ressecado. Hoje, com queratina, óleo de argan e meia horinha em paz em casa, dá-se jeito em quase todos os dramas capilares. Como era incômodo ter de usar ad eternum rabo de cavalo e/ou trança. E aqueles tic tacs. E aquelas fivelinhas. E dá-lhe gel de cabelo. O inferno.

Bolero rendado é uma tendência. Estudei da primeira à oitava série em Escolas Estaduais e o Ensino Médio em uma instituição religiosa; nessa época, descobri que quem lança tendências e se preocupa com apresentação e asseio são, majoritariamente, as moças de escolas públicas. Elas variam cores, misturam bijuterias, experimentam novos cortes de cabelo e penteados. O pessoal das escolas privadas tem camisetas rotas, jeans com aparência artificialmente envelhecida e muita, muita preguiça de acordar mais cedo para se arrumar.

Cheirinho de chiclete de morango. Quem de nós não usou alguma colônia com aroma frutal, de preferência de cor rosa? Hoje temos a Pucca, mas a fragrância Strawberries & Champagne da Victoria´s Secret é minha favorita.   Quando está em falta, opto pelo da Mahogany. Sempre é bom lembrar que sou uma jovem adulta, embora o fardo de ser chefe de família às vezes desgaste um pouco forças e bom humor. E os meus dias de estudante não estão tão distantes assim… Sempre há um aroma disponível para resgatar as lembranças.

 

 

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