Vida Social…?

Já há tempos ando extremamente incomodada com minha vida social, ou antes a falta de.  Uma vez mais, entendo que existe uma razão para eu ser considerada “a chata” do grupo.  E que há, também, um motivo para eu encontrar mais afinidade e ter comparativamente mais intimidade com pessoas que habitam em outro continente do que gente que reside na mesma cidade que eu própria.

Meus amigos, em grande parte, foram ou são estudantes de Letras. Pessoas formadas em Letras são, em 75% dos casos,  sub ou medianamente remuneradas. Só que há um detalhe implícito nesta comparação que passa desapercebido: embora seja um indivíduo com bons rendimentos, sou também a pessoa com menor poder aquisitivo do grupo.  Explico: tenho um bom salário, mas sou a única na função “chefe de família”. Não posso comprar sapatos na loja da Melissa, na Oscar Freire. Não posso adquirir todos os boxes de minisséries da BBC. E, agora venho com o argumento principal, não posso participar de um programa DURANTE A SEMANA que termine após às 10h30 ou 11h.

Sou uma proletária. Sou a típica pequeno-burguesa; ando de trem, privilegio o  transporte público, até porque trabalho na Secretaria do Meio Ambiente. Entro no serviço às 7h e saio às 16h30. Eu. Não. Posso. Faltar. Um. Dia. Sequer. No. Trabalho. Estou. Reservando. Essa. Audácia. Para. Quando. Realmente. Precisar. E. Não. Vou. Mudar. De. Ideia. Só. Porque. Alguém. Acha. Que. Funcionário. Público. É. Um. Bando.De. Gente. Folgada. Que. Não.Trabalha. E. Tem. Um. Monte. De. Faltas. Abonadas. Para. Usufruir. Quando. Quiser. God save me from human ignorance and lack of empathy.

Ah, faltou eu explicar um pequeno grande detalhe. Eu moro em São Paulo, não em New York City ou Santiago del Chile. E aqui o transporte público só funciona até a meia-noite. E não adianta argumentar que basta passar na catraca que eles atendem até o último passageiro, porque, corrijam se eu estiver equivocada,  de nada adianta chegar à estação que se quer,  se na mesma não houver o ônibus que se costuma pegar. Dãh.
Outro pequeno detalhe: tenho bem pouca tolerância ao álcool. Costumo dizer que bebo isoladamente, não socialmente.  Eu não gosto de passar vergonha, ou de dizer o que penso abertamente a quem mal conheço ou da incerteza de que posso chegar tranquilamente em casa. Programas aos fins de semana, com carona pré-combinada, dinheiro extra na bolsa para táxi e segurança de poder acordar mais tarde no dia seguinte, sem problemas em regar as magueritas à vodka sueca. Progamas durante a semana, sem retorno predefinido  e com hora certa para despertar no dia seguinte… Não tem como. Agora, a sério. De onde vem esse conceito tão brasileiro de que não existe comemoração não acompanhada de bebidas alcoólicas?!

Agora, entro em um tópico não relacionado às queixas anteriores: voltando à galera formada em Letras. Este blog até começou monotemático (sobre relacionamentos) mas logo passou a ser pluritemático, porque EU sou um ser humano pluritemático. Falamos sobre livros, filmes, viagens, eventos sociais, gastronomia. Permitam-me citar dois professores catedráticos da Letras que Não. Têm. Outro. Assunto. Senão. As. Próprias. Expertises. E. Não. Adianta. Puxar. Qualquer. Assunto. Com. Eles. Pois.  Seus. Olhos. Não. Reconhecem. Qualquer. Nuance. De.  Cor.  No.  Mundo.  Lá. Fora.

Cito um, em particular, que ministra aproximadamente 50% das disciplinas sobre Literatura Espanhola na Graduação de Espanhol e que não aceita orientandos que não adequem os objetos de pesquisa à Literatura da época dos Austrias ou, no máximo, do Renascimento. Isso não seria deseperador se a única opção não fosse uma certa professora que só aceita orientandos a respeito do Dom Quixote. Ah, ambos já se encontram em idade avançada e só se aposentarão (bastante sentidos e com direito a vários discursos inflamados em sala de aula , é claro) quando obrigados por uma questão da Legislação Trabalhista a respeito da idade máxima. Isso é muito bom, não? Afinal, para que abrir espaço a novos profissionais e novas áreas de conhecimento para produção científica? Melhor deixar tudo como está – um departamento prejurássico no qual grande parte do conhecimento produzido é um funil de uma seringa de botox (daquelas bem fininhas, nem se sente a aplicação). É mais que óbvio que a faculdade de letras está preocupadíssima com o retorno do investimento da sociedade e busca aplicar cada novo e pequeno avanço produzido em uma melhoria no sentido de aproximar a produção científica do entendimento do cidadão médio, desvencilhando-se portanto de qualquer estigma de elitismo e do vulgarizado “conhecimento inútil” que a sociedade tão injustamente lhe imputa.

Fim de noite (ou melhor começo de dia seguinte, pois quando cheguei em casa já eram, aproximadamente, 1:30 da manhã): nunca estive tão feliz por ter me desvencilhado dessa ideologia niilista e ser uma pequeno burguesa narcisista, proletária e assalariada. Alas!

 

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