Branca de Neve e o Caçador

De todos os clássicos da Disney, nenhum me incomoda tanto quanto Branca de Neve.  Que heroína mais insossa, limpando o poço do castelo quando, subitamente, passa um príncipe maravilhoso em um cavalo branco e ela se esconde timidamente por trás dos animaizinhos que a ajudam nas tarefas domésticas! Simplesmente patética! E, quando o caçador vai executar a performance, é até compreensível que ela o perdoe, mas a madrasta (…!). Por favor, respeitem minha inteligência em constante ascensão e aperfeiçoamento. Sem comentar o estereótipo corporal eleito pela Disney, uma figura desprovida de busto, glúteos e que atinge a quintessência da experiência humana cozinhando e limpando. Sem o elemento trágico de predestinação da Bela Adormecida ou o caráter transgressor de Belle, Ariel, Jasmine, Pocahontas e Mulan, não sobrou muito para conquistar minha afeição nessa branquela.

Convém ressaltar que, desde a infância, sempre tive essa desconfortável tendência de torcer para o vilão. Não que minha aversão ao maniqueísmo já houvesse começado tão prematuramente – ocorre que um dos elementos que define minha natureza, digamos, idiossincrática, é a meritocracia. Faça por merecer, é meu lema. Até porque é quase impossível não desmerecer o que nos vem sem esforço – e não valorizar o que foi arduamente conquistado e mantido.

Exceto nos filmes de James Bond, o vilão sempre, sempre, SEMPRE tem esquemas mais criativos e elaborados que o heroi para atingir seus objetivos. Batman, por exemplo – dotado não só de inteligência acima da média, como de fortuna ilimitada, o cara consegue ter um carro que vira lancha ou helicóptero, dependendo da necessidade. Não é de surpreender que eu sempre torça para que as artimanhas felinas de Selina Kyle superem a armadura invulnerável deste antipático! E o Superman, então…? Além de exercitar seus dotes dramáticos interpretando o desengonçado Clark Kent, que esforço esse simpático alien faz? Foi salvo da aniquilação por Jor-El, adotado pelos amorosos Kent e toda sua força é fornecida gratuitamente pelo Sol. O máximo de precaução que deve ter é evitar os resquícios de kriptonita e, ainda assim,  é tão acomodado que nem se preocupa em descobrir onde está armazenada para eliminá-la, trabalho que seus inimigos sempre têm. Já Lex Luthor, que mente iluminada!  Arma um plano magnífico que une a especulação imobiliária do Vale do Silício a uma total reconfiguração do mapa dos Estados Unidos! Espetacular! Que desilusão, quando falha!

Daí vem a constatação obvia que eu, logo de cara, já sabia que ia torcer para a madrasta, Ravenna. Ainda mais reconhecendo a constatação evidente para qualquer um, menos o responsável pelo casting, de que Charlize Theron é notoriamente mais bela que aquele filhote de Cruz Credo que atende pelo nome de Kristen Stewart. Sedutora desde a pronúncia e prosódia  perfeitas até o último de seus gloriosos fios de cabelo, a personagem é infinitamente mais impactante e complexa que qualquer heroína de contos de fada. Os flashes de seu passado e os caminhos que a levaram ao status de escrava do poder, da beleza e da eterna juventude, vão muito além dessa tendência do cinema e da literatura de humanizar os antagonistas. Mas já que o título do filme não é Ravenna e o Filhote de Cruz Credo, vamos à heroína.

(nota: Kristen Stewart de fato não consegue fechar a boca totalmente ou ela acha aqueles dentões tortos sua marca mais sexy ?!)

Branca de Neve vem a atender todas as demandas dos demais personagens, metamorfoseando-se a cada nova necessidade: a mãe queria uma filha com características que aliassem beleza e resiliência; o pai precisava de uma vingadora; o povo, de um líder inflamado com discurso motivacional; o caçador, de uma alma caridosa que o rendesse; o príncipe, de um ideal de criança para resgatar suas melancólicas recordações de infância; a madrasta, um coração jovem para recuperar a beleza. A personagem não se define por si própria, mas por assistir aos demais. Ao contrário da madrasta, não possui identidade, não se busca no espelho.

Nessa constante reconfiguração, a cada novo quadro, perde-se a essência da heroina, que termina o filme com um perfil indefinido: não é uma donzela delicada, mas tampouco uma nobre amazona, muito menos uma Guinévere relutando e expondo sua confusão mental como cerne de um triângulo amoroso.  Como Kristen Stewart, que magicamente consegue papéis em produções muito além de sua capacidade, creio que a vitória dessa heroína consiste apenas em estar do lado correto da equação.

6 opiniões sobre “Branca de Neve e o Caçador

    • Pode ir que eu “agarantcho”. Depois vc vai entender porque eu saí do cinema e tomei um banho de creme de leite fresco! E o Chris Hemsworth, meu favorito dos Vingadores, já vale o ingresso!
      Beijos

  1. Ah, não vi ainda, só mesmo pela Charlize eu verei… e pelos efeitos visuais, que parecem muito bons. Vi uma outra Branca de Neve, assim mais para o suave, e não desgostei: a rainha má feita por Julia Roberts é interessante e o princípe, Armie Hammer, é um mimo!

    • Eu, particularmennte, gostei muito. O que pesa, a meu ver, é essa direção do Clint Eastwood. Ele e a Madonna era melhor ficarem só como atores…
      Ah, lembrei que ele também faz os gêmeos Winklevoss de quem o Zucka “plagiou” o Facebook em “A Rede Social”. Realmente, promissor é pouco!

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