Até onde chega (a falta de limites de) um sem-noção

Bom dia, queridos leitores e leitoras. Hoje, vou expor um pouco mais da minha intimidade do que costumo, portanto peço que almas sensíveis se abstenham da geralmente mais agradável leitura do meu blog.

É de conhecimento de minhas amigas e amigos que ano passado eu entrei de cabeça em um relacionamento mais do que desastroso com um engenheiro que trabalhava no mesmo departamento.  O que motivou a consentir com tamanho desrespeito ao qual fui exposta ao longo da relação, eu sinceramente ainda não sei. O que posso afirmar com certeza é que, quando um relacionamento começa pelas razões equivocadas, não há modo com que se consertem as coisas para terminar de maneira satisfatória.

O mais perto de conclusão à qual cheguei na época é que não se começa um namoro com baixa auto estima, pois homens farejam insegurança como um gato fareja pombos no quintal e se aproveitam, mercenária e predatoriamente. Dito, feito, comprovado e documentado.

Isso criou, na época,  um paradoxo intransponível para mim, visto que eu entrei nessa relação como forma de me sentir valorizada como mulher, já que meus dois namoros anteriores tinham sido terminados pela outra parte,  com justificativas altamente incômodas, como, por exemplo, “que eu era muito santa” e que é muito difícil discernir quando estou sendo séria ou irônica (vamos combinar que um pouco de bom senso sempre cai bem em todas as situações).

Sentindo-me carente de atenção masculina (um sentimento ridiculamente patético, admito, mas ainda assim potente e perigoso) aceitei um primeiro convite deste rapaz para um almoço sábado, no qual surgiu já um segundo convite para um cinema no dia seguinte e… lá fomos nós.  Entramos amigos, saímos namorados. Agora, qual leitora de romances de banca de jornal enquanto aguarda o efeito da hidratação num salão de beleza desconfiaria de um enlace tão rapidamente resolvido?

 

Nessas horas difíceis, lembremos aquele brinquedo que queríamos mais do que tudo na infância: nos comportávamos bem, tirávamos boas notas na escola, mas era tão caro que tinhámos de esperar Natal, aniversário, dia da Criança ou décimo terceiro salário de um dos pais para finalmente ganhá-lo. E, quando vinha, o medo de perdê-lo ou estragá-lo era tanto, tanto, TANTO que acabávamos nem usufruindo dele corretamente. Enquanto que, por outro lado, os brinquedos que ganhávamos facilmente, que vinham de brindes em doces, que recebíamos em feiras na escola, etc., eram descartados quase de imediato ou cruelmente ignorados o resto de sua curta existência (visto que eram geralmente perdidos ou quebrados num flash, sem direito a pranto). Só uma pessoa muito carente se esquece desse “fator fetiche”  ao iniciar um relacionamento – e  outra muito oportunista e de moral duvidosa vê uma situação assim configurada como campo fértil para obter suas sórdidas intenções.

Ah, também por acaso neste relacionamento, descobri o que todos os livros de autoajuda femininos habilmente se esquecem de mencionar: mesmo quando o cara simplesmente não está a fim de você, mesmo quando não quer NADA,  este suposto “nada”…  Não. Inclui. Sexo.

Outra cortesia da minha “criação” (melhor seria denominar “aniquilação”): sou incrivelmente cética quanto à questões amorosas. Não é que eu não confie. Digamos que eu faço uso da máxima “confie desconfiando“. Mas eu quero confiar. Oh, como quero. Não obstante, como saberei se posso ou não confiar sem expor o “confiável” em algum momento a uma situação de risco? Só que a prova não vale se só ele estiver em perigo; eu tenho de estar em risco também.

Foi então, mononeuronadamente,  que eu me expus a uma situação asquerosa, embaraçosa e, francamente, que não condiz com minha personalidade. Sinceramente, aquilo não SOU EU. Mas fiz, ainda assim. E foi bom; não, não foi uma coisa aproveitável mas teve um resultado proveitoso – descobri o quanto a pessoa com quem eu estava ficando era covarde e dependia da minha esparsa masculinidade para se esconder atrás de mim em uma crise.

Oh, and  plus: como ferramenta de manipulação, vinculou, verbalmente, a possibilidade de vir a desenvolover um sentimento de afeto à minha adorável pessoa (admitindo, portanto este fator como ausente até então) à realização do ato sexual em circunstâncias, digamos, atípicas. Realmente, mereço isso?

Ah, sim, desculpem. Esqueci um detalhe: um ano depois, tendo pedido gentilmente (como é meu estilo) a essa criatura que me esquecesse absolutamente, ele responde a um e-mail banal que nem havia sido escrito por mim, estava apenas copiada, perguntando com a maior intimidade como eu estou e sondando se podemos seguir amigos. Sou só eu que acho isso estranho?

Sim, sou apenas eu. Ninguém com quem conversei a respeito achou nada de mais.  Desculpe, mas amigo para mim tem outra acepção. Amigo é uma pessoa em quem deposito confiança, avessa a manipulação, com nada a obter de mim exceto apoio, sinceridade e afeto. Eu conto meus amigos nos dedos de uma mão, até porque não sei o que eles vêem em mim. Eu mesma confesso que sou péssima amiga. Sou estúpida, mal humorada , avessa a compromissos, tenho opiniões polêmicas, vivo esquecendo o celular no carregador em casa. Isso quando não enfio o nariz num livro ou seriado e esqueço que há um mundo lá fora.

Mas não foi por isso que ninguém achou estranho, não, não, não. Foi porque a sociedade está concedendo um status tão alto e tão estupidamente desejável à mulheres que têm um homem, ou que se pareça com, que esses trastes desprezíveis acham natural que relevemos, não importa o quão desrespeitoso tenha sido o tratamento que eles nos deram. Simplesmente asqueroso.

Conclusão: não comece nada da maneira errada, pois as chances de acertar ao longo do percurso são mínimas. Se sua autoestima não anda lá nas alturas, finja que está e atue como tal. Nunca arrisque nada que não esteja pronto para perder. E não, não aceite qualquer desrespeito verbal, implícito ou em atos.

 

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