Carol Dieckmann e o Big Brother em cada um de nós

 Recentemente,  o site da CETESB foi alvo de hackers que introduziram fotos da atriz Carolina Dieckmann na página de acesso do público externo. Embora as fotos tenham sido retiradas pouco tempo depois, a situação rendeu muitas discussões sobre nosso status de segurança na rede e a vulnerabilidade no que concerne ao olhar invasivo do outro sobre nós.

A atriz, já bastante desgastada devido a uma chantagem mal sucedida e à superexposição que se seguiu, foi bastante criticada por ter posado para as fotos em primeiro lugar. Ainda assim, o total de acessos a todas as páginas contendo o “ensaio” (que aparentemente era menos erótico e mais íntimo, ainda que bastante constrangedor) já somam oito milhões de “espiadinhas”. Obviamente, ao produzir as fotos, Carolina não previu que estas seriam perscrutadas por milhões de destinatários desconhecidos.

No romance clássico de ficcção científica 1984 de George Orwell, escrito em 1949 com as perspectivas de como o mundo se tornaria caso os sistemas de socialismo soviético, imperialismo norte-americano e políticas de assistencialismo social europeu no cenário pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945) se intensificassem, é-nos apresentado o personagem do Grande Irmão, o famoso Big Brother. Essa figura política autoritária, patriarcal e extremamente invasiva ficava disponível durante as 24 horas nas casas de todos os indivíduos, simultaneamente recebendo e transmitindo imagens e discursos através de um aparelho denominado “teletela”. Observado ao longo do dia e sem a opção de desligar ou emudecer o aparelho, o ser humano não possuía o direito à privacidade ou ao livre arbítrio, sendo repreendido cada vez que sua conduta divergisse das orientações do Grande Irmão. A teletela também servia ao propósito de veicular incessantemente os lemas do discurso oficial do patriarca: “Liberdade é Escravidão/ Guerra é Paz/ Ignorância é Força”.

O conceito do Big Brother costuma ser associado ao desejo de pessoas que anseiam fortemente sair do anonimato, tornando-se conhecidas do público e terem assim seus quinze minutos de fama. No caso de Carolina Dieckmann, entretanto, há mais conexão com os aspectos detectados por Orwell, um grande denunciador dos regimes autoritários: a invasão à intimidade doméstica do indivíduo, sua superexposição, o impedimento da espontaneidade ante o olhar escrutinador do outro.

Orwell, por muitos considerado um autor bastante cético e até mesmo pessimista, analisou as tendências primárias do ser humano e apontou nossa necessidade natural de querer ver e saber mais sobre o outro, mais ainda do que ele está disposto a permitir. Porque um regime totalitário que proponha tal invasão somente se sustentaria sobre um elevado número de pessoas desejosas de visualizar o outro em sua intimidade. De fato, torna-se cada vez mais árdua a tarefa de suprimir o Grande Irmão sempre presente em nós mesmos.

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