Infantilização – um drama existencial mascarado de comédia de costumes

Alguém já lidou com um pseudoadulto? Se sim, sabe a quem me refiro – a uma pessoa cuja maturidade emocional não acompanha de forma alguma a idade biológica. Uma pessoa que, ante um “não”, só encontra três alternativas – lamentos excessivos típicos de processo de vitimização, agressividade ou autodestruição. Tudo proveniente da incapacidade de digerir a realidade e impossibilidade (antes eu utilizava o termo “dificuldade”, mas a experiência prova que é ainda mais grave) de lidar com frustração.

A frustração é inevitável. Além da morte, acho que é o que temos de mais certo na condição humana. Um afeto não recíproco. Um trabalho no qual nos esmeramos e cujo mérito não nos é atribuído. Uma injustiça perpetuada por familiares. O elogio de uma ação propositalmente feita para agradar alguém que sequer a nota. A lista de possibilidades é longa… Talvez seja demasiado polêmica, mas proponho e sustento a seguinte tese: “A medida da grandeza do ser humano atual reside na sua resiliência e da capacidade de lidar com a frustração”. Seguem exemplos:

Situação a) Pseudoadulto na faculdade recebe o resultado de uma prova. Nota: em 99% dos casos, uma característica marcante do pseudoadulto é uma gritante falta de autocrítica. Ao receber a nota 5, a aluna, que se considerava exemplar, fica inicialmente chocada com o resultado. Procura a calculadora e confere, a duras penas, a soma dos decimais a resultar na nota final. Indignada, procura a professora ao final da aula, sob a alegação de que “Só pode haver algum equívoco”. A professora confere as respostas, soma os decimais na frente da aluna e responde que não há equivoco algum. Aliás, a aluna tem nota proporcional à frequência, de modo que não há muita surpresa. Inconformada, a aluna lança um olhar de desprezo à docente e deixa a sala. Ao encontrar sua amiga no intervalo, comenta como essa professora é invejosa, uma mal amada, que deve morrer de inveja das alunas jovens e belas e submetê-las a toda classe de injustiças para expressar seu rancor. A aluna e a amiga seguem o intervalo classificando a tal professora dos piores nomes; Inclusive, uma delas tem a brilhante ideia de chegar mais cedo no dia seguinte e escrever alguns palavrões dirigidos a ela no quadro. Tendo delineado este plano, as duas afogam as mágoas acadêmicas no centro estudantil na cervejada da tarde.

Situação b) Pseudoadulto frustrado por não receber todos os méritos pelos resultados de um trabalho em equipe na empresa. Em determinado projeto de uma empresa, trabalham três funcionários de uma mesma área. Em dado momento, a supervisora deste grupo pergunta de onde surgiu determinada ideia, e o pseudoadulto é apontado como autor. Elogiado pela superior imediata, o funcionário fica com a (falsa) impressão de ser o prinicipal responsável pela realização do evento, patrocinado e executado pela colaboração de diversas áreas da empresa. Nos projetos posteriores, o empregado visa, por todos os meios, tomar a palavra nas reuniões (nas quais faz questão de sentar na cabeceira da mesa) mesmo quando seus posicionamentos são questionados por unanimidade, inclusive contradizendo e desautorizando ante os demais sua superior imediata, aquela mesma que o havia elogiado. A situação atinge o auge quando a gerente de outro setor, indispensável às tratativas, o exclui dos destinatários de e-mails, claramente sugerindo seu desligamento da equipe de eventos. Desgostosa com monstrinho que criou, a gerente evita passar tarefas que exijam uma postura mais diplomática do funcionário, que se sente cada vez mais injustiçado e mal aproveitado na equipe até que pede demissão da empresa.

Situação c) Pseudoadulta “magoada” pois seu pai a tratava como “filha de segunda classe”. A moça, com aproximadamente 30 anos, é uma professora, criada pela mãe e reconhecida formalmente pelo pai (que não deixou de pagar uma mensalidade sequer da pensão estipulada) aparece em todos os meios de comunicação pedindo, aos prantos, por justiça. Nota: a justiça a que ela se refere tem um valor monetário, também traduzido por R$ 200 mil reais. Aparecendo em poses lacrimosas em diversas fotos e balbuciando seu apelo ao abandono afetivo de que foi vítima e como não consegue superar tamanha atrocidade perpetuada a sua amável pessoa, mesmo transcorridas 3 décadas de existência, a moça chora, apela e manipula até que comove júri e juíza e obtem o reembolso por transtornos emocionais. Como isso vai estimular o aumento de sua autoestima e capacidade de lidar com a rejeição, eu não sei. A meu ver, só deu ao pai mais uma razão para não simpatizar muito com ela.

Pois é, queridos. Quem souber o que faltou a essa nossa geração e o que (não)estamos transmitindo aos que vêm em seguida e estiver com ânimo de elaborar, por favor comente. Porque, sinceramente, eu não sei.

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