Os 8 ou 80 da autoestima

Fã como sou das redes sociais, também entusiasta sobre sites de e-date, já tenho um know how suficiente para comentar a respeito. 

Sei que o princípio da coisa é conhecer novas pessoas, desbravar fronteiras, encontrar pessoas que usualmente não encontraríamos, etc etc etc mas certo respeito por si próprio e ênfase na segurança pessoal nunca são demais.

No Facebook funciona assim: NUNCA. NUNCA. JAMAIS. EM TEMPO ALGUM. EM HIPÓTESE ALGUMA adicione pessoas que não conhece. Mesmo se estiver em uma comunidade de banda, autor ou atriz que você venera, se formou na mesma universidade que você ou tem n amigos em comum, não faça isso. Já já explico o  porquê.

Um belo dia um rapaz não tão belo chamado Igor B.  me mandou uma solicitação de amizade no FB. Vi que era fã de A-ha, professor de inglês e tínhamos várias a-hamigas em comum. Pensei cá com meus botões cor de rosa, mesmo que não seja uma das 30 pessoas com quem eu troquei uma ideia na fila dos shows, que mal pode haver nisso, não é mesmo? O cara mora em Belém do Pará, não tem como me amolar muito e, mais importante, uma pessoa capaz de apreciar a magnificência do Morten Harket não pode ter mau caráter. Santa ingenuidade, Batman!

O rapaz me chamava no bate papo a qualquer hora do dia (claro indício que não era muito chegado em um trampo), já logo de cara começou a me chamar de “amor” e “linda” (palavras que eu, particularmente, considero tão preciosas que faço questão de não vulgarizar) e postar trechos de letras (mal) traduzidas do A-ha no meu mural, achando que estava me deleitando. Até aí, muito bem, até porque eu, particularmente, não gosto de desilusionar ninguém, por mais presunçoso e medíocre que seja.

O problema começa quando chega o mês de novembro e o tal rapaz diz que vem a SP aproveitar a F1 que, por sinal, cai no dia do meu aniversário. Além de mandar vários verdes sobre uma possível hospedagem na minha casa (Hello, mal aguento minha mãe transpondo meu espaço aéreo) que eu elegantemente esclareço prontificando-me a sugerir vários hotéis, ao que ele soberbamente replica que váaaaaarias a-hamigas já tinham-no convidado a ir visitá-las, mas no fim ficaram envergonhadas de suas humildes residências.

Não bastasse tal excesso de comodidade, o rapaz começa a fazer perguntas realmente incômodas, como minha altura, peso e tamanho de calça (ao que eu evidentemente pergunto se ele é, por acaso, alfaiate). Agora, ignorando absolutamente todas as minhas manifestações de desagrado, o sem- noção ainda ter a ousadia de dizer uma frase como “Saio da F1 e vou direto te encontrar, aí se rolar, rolou” (!!!!!). Contendo meu  imenso desejo de mandar um link para o clip da Pink (U and ur hand) respondo que não estou absolutamente interessada e mais, não aprecio em geral investidas vulgares desta espécie. Nossa, vocês deveriam presenciar a transformação que este comentário mais do que moderado da minha parte desencadeou.

O rapazinho simplesmente surtou, reagindo igual a um menino birrento desejando que a criança que ganhou um doce por ele almejado tenha uma dor de barriga; após os comentários mais típicos (“não precisa humilhar/ você vai morrer sozinha”) o tipo ainda demonstra sua grande maturidade emocional e habilidade em lidar com a rejeição me bloqueando permanentemente (até porque é ooobvio que eu ia tentar conversar com ele de novo e convencê-lo do contrário).

Pois é, caras amigas. Apelando para minha brilhante habilidade de psicóloga amadora, deixem-me comunicar a mais triste notícia de que estamos nos tornando massivamente vítimas da síndrome dos 8 ou 80, ou se preferem, excesso ou falta crônica de autoestima.

Igor B. deve ser o típico filho idolatrado pelos pais, alunas, colegas, etc. e não  é capaz de aceitar, racional ou emocionalmente,  que alguém não o adule. Melhor ainda, ele é incapaz de crer que alguém não se sinta lisongeado com suas demonstrações de interesse.

 Infelizmente, existe um grande número de pessoas ( quase todas com dois cromossomos X) com tão baixa auto estima que consentem, mesmo sem se darem conta,  com este tipo de tratamento vulgar e desrespeitoso. Por sorte, ainda existem mocinhas faltas de bom senso que ajustem a atitude destes rapazinhos inoportunos. Porque,  para uma autoestima 80 se sustentar, são necessárias ao menos 10 autoestimas 8.

Kristen Stewart e a geração “Nada a Declarar”

Já há muito a presença dessa atriz sem qualquer expressão facial em papeis como a maravilhosa Joan Jett e agora na adaptação do clássico de Jack Kerouac On the Road me incomoda sobremaneira.  Mas suportei heroicamente, até porque não quero ser acusada de saudosismo ou postura excessivamente reacionária; mas agora que atingi o limite, minha pena clama por liberar o veneno há duras penas contido.

A versão dark de Branca de Neve terá, no papel da madrasta, a maravilhosa Charlize Theron; Chris Hemsworth como o caçador; e um inevitável estreante bonito mas de talento duvidoso como príncipe. AGora, o papel principal para essa filhote de nada…? Uma atriz que tem uma mesma expressão para: dor, gozo, desespero, melancolia, euforia? Pelos Deuses do Olimpo, como se atrevem a menosprezar as emoções primárias humanas com essa tipa?!

Demorei a compreender a lógica para essa narrativa, até que duas amigas forneceram as pistas para os elementos que completariam o quebra-cabeça.  Talita, que é bailarina profissional,  destacou como é difícil atualmente obter reação do público, que não aplaude quando gosta e tampouco vaia quando despreza; por sua vez, Adriana, professora tanto do Estado quanto da Prefeitura, destaca como seus alunos se assemelham, ao expressar opiniões, ao Tropeço da família Addams, famoso pela fala inarticulada e trejeitos mecânicos. 

Resumo da ópera (ou melhor, da tragédia): temos uma geração que não somente não se anima a transmitir emoções mas também consagra “artistas” marcados pela inexpressividade.  O  famoso “Nada a Declarar ” nunca foi tão verdadeiro.

A Família Addams no Teatro Abril

Embora eu, particularmente, não seja muito fã de musicais e me irrite com qualquer alteração de sentido devido às acomodações sonoras do Inglês/Português, desta vez não encontrei sequer um ponto de queixume para esta fenomenal megaprodução. (Ok, não aguento, lá vai: Pô, Teatro Abril! O ingresso já é um olho da cara e vocês estão operando com a casa lotada praticamente em todas as apresentações. É realmente necessário cobrar 5 reais uma água?! ) 

Os temas bem executados e coreografias impecáveis já seriam suficientes para atrair boa parte do público.  O projeto, no entanto, é ambicioso: para agradar gregos e troinanos, trazer o público jovem, não desagradar o sênior e manter o cativo, um subtexto excelente foi introduzido como fio condutor, tendo como base a confiança íntima dos casais e convivência e tolerância com as diferenças.

Vandinha e Lucas são um casal atípico, mas Gomez e Mortícia constituem nosso cânon de casal bem engajado desde sempre. É um frenesi, portanto, quando o impasse da relação do jovem casal culmina no distanciamento dos pais da noiva.  Bem aventurado, no entanto, é o Tio Fester (terrivelmente semelhante a um certo ex presidente brasileiro), com um modelo de relação à distância bem sucedido. Pertence a ele a melhor tira da noite: 8.140 mil km é uma boa distância para um casal. Ah, ênfase também para os pais do noivo, pessoas de bem, do interior e fãs de Celine Dion.

O número de tango foi um dos melhores da noite, como se já não bastasse a performance vocal inspirada e excelente dicção de Marisa Orth e Daniel Boaventura – essa é para vocês, atores globais que poderiam gastar uma graninha no fonoaudiólogo, para bem geral da nação.

Coreógrafos, figurinistas, roteiristas e, é claro, atores, estão de parabéns. Ah! Não podemos deixar de prestigiar a fantástica Maestra que regeu a orquestra.  Que sirva de exemplo a certas tendências aparentemente “misóginas” de outras companhias teatrais.

Boicote ao Teatro Vivo

Todos que me conhecem sabem que quando eu não aprovo algum produto ou serviço,  seja por razões práticas ou ideológicas, não somente boicoto, mas recomendo a outros fazerem o mesmo com argumentos, digamos, contudentes. Já assim foi com vários spas, cabeleleiros, manicures, Mac Donald´s, produtos Coca-Cola, livraria Saraiva. Mas agora achei uma nova “vítima” para esse meu crivo: teatros.

Todo ator que faça jus ao nome já leu Shakespeare. Todos, exceto Marcelo Antony; ele só se debruçou sobre a obra do amado Bill devido à estreia de seu papel principal em Macbeth (!!!).

Não que eu seja ingênua para supor que todos os autointitulados “atores” devessem estar familiarizados com a obra do maior autor dramático de todos os tempos, o único escritor cuja obra foi traduzida para todas as línguas, feito que nem a Bíblia Sagrada conseguiu. Não, nhão, nhãom. De fato, se a pretensão do ser humano em questão é ser uma celebridade global e estar com o cabelinho mais solicitado nos salões do Brasil, ao melhor estilo Grazi Massafera/Taís Araújo, ser um leitor inveterado de Shakespeare é até desaconselhado. Mas atores de verdade, que visam interpretar (não apenas aparecer/lucrar), querem conquistar admiração, regozijo, repulsa, enfim, despertar sentimentos passionais de seu público… Come on, dude. No mínimo, Sófocles, Eurípedes e Shakespeare. No Mínimo.  

O problema é que o brasileiro médio lê tão pouco, tão pouco, que até uma afirmação banal como a de Antony, aos olhos de muitos, reflete um ponto acima do ordinário. Inclusive, não seria de surpreender se ele tivesse lido tão-somente a adaptação da peça e desprezasse o original. Dado o contexto, é até de bom tom que ele pelo menos tenha tido o bom senso de ler os originais shakespeareanos.

Agora,  perdoada a aversão a Shakespeare dos autores consagrados, vamos ao que eu considero imperdoável e constitui a razão crucial para o meu boicote: o papel de Lady Macbeth será interpretado por…UM HOMEM!

Pois é, caros blogfriends. Lembram-se daquela época obscura, tenebrosa, quando o mundo era assolado pela praga, a Igreja Católica queimava na fogueira as ruivas e a profissão de ator era demasiado indecorosa para ser exercida por uma mulher? Bons tempos, não? Por que não resgatar essa excelente tradição, não é mesmo? Afinal, Ana Paula Arósio, que foi cotada para o papel (e, diga-se de passagem, frequentou a Faculdade de Letras da USP durante um par de anos e nunca perdeu uma aula do John Milton, maior especialista de Shakespeare radicado no Brasil)  jamais conseguiria transmitir a elegância e perversidade de Lady Macbeth, não como um homem certamente conseguiria.

Resumo da ópera (ou tragédia, enfim): NãO VOU NEM ARRASTADA PRESTIGIAR PRESTIGIAR SEMELHANTE  BARBáRIE. Prefiro gastar outros 80 reais e rever a Família Addams, que aliás será o assunto do próximo post. Excelente semana de 2012 a todos!

 

Carol Dieckmann e o Big Brother em cada um de nós

 Recentemente,  o site da CETESB foi alvo de hackers que introduziram fotos da atriz Carolina Dieckmann na página de acesso do público externo. Embora as fotos tenham sido retiradas pouco tempo depois, a situação rendeu muitas discussões sobre nosso status de segurança na rede e a vulnerabilidade no que concerne ao olhar invasivo do outro sobre nós.

A atriz, já bastante desgastada devido a uma chantagem mal sucedida e à superexposição que se seguiu, foi bastante criticada por ter posado para as fotos em primeiro lugar. Ainda assim, o total de acessos a todas as páginas contendo o “ensaio” (que aparentemente era menos erótico e mais íntimo, ainda que bastante constrangedor) já somam oito milhões de “espiadinhas”. Obviamente, ao produzir as fotos, Carolina não previu que estas seriam perscrutadas por milhões de destinatários desconhecidos.

No romance clássico de ficcção científica 1984 de George Orwell, escrito em 1949 com as perspectivas de como o mundo se tornaria caso os sistemas de socialismo soviético, imperialismo norte-americano e políticas de assistencialismo social europeu no cenário pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945) se intensificassem, é-nos apresentado o personagem do Grande Irmão, o famoso Big Brother. Essa figura política autoritária, patriarcal e extremamente invasiva ficava disponível durante as 24 horas nas casas de todos os indivíduos, simultaneamente recebendo e transmitindo imagens e discursos através de um aparelho denominado “teletela”. Observado ao longo do dia e sem a opção de desligar ou emudecer o aparelho, o ser humano não possuía o direito à privacidade ou ao livre arbítrio, sendo repreendido cada vez que sua conduta divergisse das orientações do Grande Irmão. A teletela também servia ao propósito de veicular incessantemente os lemas do discurso oficial do patriarca: “Liberdade é Escravidão/ Guerra é Paz/ Ignorância é Força”.

O conceito do Big Brother costuma ser associado ao desejo de pessoas que anseiam fortemente sair do anonimato, tornando-se conhecidas do público e terem assim seus quinze minutos de fama. No caso de Carolina Dieckmann, entretanto, há mais conexão com os aspectos detectados por Orwell, um grande denunciador dos regimes autoritários: a invasão à intimidade doméstica do indivíduo, sua superexposição, o impedimento da espontaneidade ante o olhar escrutinador do outro.

Orwell, por muitos considerado um autor bastante cético e até mesmo pessimista, analisou as tendências primárias do ser humano e apontou nossa necessidade natural de querer ver e saber mais sobre o outro, mais ainda do que ele está disposto a permitir. Porque um regime totalitário que proponha tal invasão somente se sustentaria sobre um elevado número de pessoas desejosas de visualizar o outro em sua intimidade. De fato, torna-se cada vez mais árdua a tarefa de suprimir o Grande Irmão sempre presente em nós mesmos.