Jane Austen e o Papel

Jane Austen e o papel da mulher

 

 

“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, de certa fortuna, deve estar em busca de uma esposa.” Orgulho e Preconceito, Jane Austen.

“Devo ater-me a meu próprio estilo e seguir meu próprio caminho. E, apesar de eu poder nunca mais ter sucesso deste modo, estou convencida de que falharia totalmente de qualquer outro.” Jane Austen, sobre a própria Literatura.

 

Por muitas décadas, o longo período em que Jane Austen teria ficado sem escrever foi atribuído ao luto pela morte repentina de seu pai. No entanto, estudos sociológicos recentes apontam o alto preço do papel como fator determinante dessa pausa – sem o pai/provedor para assegurar os meios de produção, Jane não tinha como dar continuidade à sua extraordinária obra.

Nascida em uma família rural na Inglaterra do século XVIII, Jane Austen é uma das maiores autoras do cânon literário mundial, tendo produzido antes de falecer, aos 41 anos, seis romances completos. Sua obra, comumente classificada como “comédia de costumes”, desvela os conflitos de toda uma geração de mulheres sem outra opção de carreira senão o matrimônio.

Na época, uma moça nascida de uma família tradicional e com alguma instrução[1] tinha geralmente como maior objetivo de vida estabelecer um casamento vantajoso, sobretudo se não contasse com um dote. Jane Austen sentiu na pele os dramas existenciais de muitas de suas heroínas que, órfãs e sem maiores possibilidades de matrimônio, vivem precariamente da caridade de parentes, pois uma mulher adotar uma profissão e prover o próprio sustento era considerado um “escândalo”.

Ao contrário de suas personagens – que, após alguma dificuldade, sempre encontram uma união vantajosa nos desfechos – , a autora ousou recusar uma oferta de casamento com um rico herdeiro e exercer uma profissão que asseguraria não apenas um meio de vida, mas a imortalização de seu nome. Jane Austen, tendo o irmão como agente literário, corajosamente afirmava que uma mulher poderia escrever sobre temas impactantes, com seriedade e utilizando a melhor das linguagens. Convém ressaltar que o romance era então considerado um subgênero vulgar, sendo a poesia a produção literária mais nobre da época.

A autora, elegantemente, desafiou muitos convencionalismos de seu tempo ao apresentar-se como escritora profissional, manter-se por meio da venda de seus livros e defender o gênero do romance com temas domésticos, obtendo inclusive o elogio de uma das maiores referências de seu tempo, Sir Walter Scott.

Graças a contribuições de mulheres como ela, hoje temos meios de cumprirmos e comprarmos nosso próprio papel.


[1] A educação ideal feminina inglesa incluía piano, costura, geografia e desenho – as habilidades intelectuais não eram desejáveis e, caso existissem, deveriam ser dissimuladas.

         

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