Os homens que não amavam as mulheres

Uma das coisas que mais me incomoda no cinema atual é a violência em excesso, esta estética da arte de chocar o espectador com cenas excruciantes, de revirar o estômago mesmo de angústia. O autor da série Millenium, o sueco Stieg Larsson, tinha uma obsessão pela misoginia, ou antes pela denúncia da violência contra a mulher, desde que presenciou o estupro coletivo de uma adolescente quando ele tinha 15 anos. A menina em questão deu o nome à personagem mais marcante da série, Lisbeth.

Embora esta versão hollywoodiana conte com o novo Bond, Daniel Craig, como o jornalista investigativo Mikael e a atriz do sucesso A Rede Social, Rooney Mara (irreconhecível!) , como Lisbeth, a aura noir e a atmosfera gélida da longínqua Suécia, um país cuja bracura da neve é maculada pelas cruéis paixões e corrupções humanas, permanece nessa versão agora em cartaz do primeiro livro da saga Millenium.

(nota: a anta aqui não verificou o horário dos ônibus no feriado de Carnaval, logo sua visão do filme será intensamente influenciada pela caminhada solitária até sua casa, às duas da manhã, após ter visto o filme na sessão das 23:15 do Cinemark)

A trama se passa nos dias atuais, embora o fio condutor do enredo seja o mistério do desaparecimento de uma moça de 16 anos quarenta anos atrás. Aqui, o cinema tem uma grande desvantagem em relação ao livro, pois o patriarca que contrata Mikail como detetive disfarçado como biógrafo dá uma dica preciosa: o que quer que tenha acontecido à jovem, só poderia ter sido feito por um dos membros da numerosa família. E, além do próprio, somente um membro é enfatizado ao longo do filme, levando à desagradavelmente fácil conclusão de que ele é o responsável (ainda que indiretamente) pelo que quer que tenha acontecido à moça. Além disso, uma personagem secundária, apresentada como prima da jovem, tem muita semelhança física com a foto da moça no dia do desaparecimento. Caso houvessem sido evitados, esses pequenos deslizes aumentariam a aura de tensão e suspense ao longo do filme.

Não que o enredo em si não seja tenso – de fato, a angústia é tanta que em alguns momentos tive que policiar minha respiração para tentar não suar tão frio. Nem vou mencionar a cena em que Lisbeth é algemada, amordaçada e violentada pelo assistente social que cuida de seu caso. Mas a aura de corrupção, violência (física e emocional) e ausência de esperança é tão densa que fiquei com receio de assistir aos próximos filmes, pois a tendência desses clássicos góticos é sempre piorar ao longo dos volumes. Creio que desde Matrix não houve uma trilogia capaz de construir um universo paralelo tão realisticamente angustiante, com o porém de que Millenium trabalha com a imersão nas profundezas e obscuridades da exata sociedade que habitamos.  

Fiquei com a sensação de uma obra de arte, embora americanizada e ilógica em alguns aspectos (por exemplo, o enredo se passa na Suécia, mas a línga falada é o inglês, logo foi improvisado um sotaque nórdico totalmente fake). Só que a Rooney Mara não ganhará o Oscar, tendo como concorrência Meryl Streep no papel de Margareth Tatcher. De fato, os anti-heróis do submundo não são páreo para o poder instituido do mainstream…

 

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