Brasil – rumo ao século XVIII

Pois é, minha gente, ainda não desisti de discutir os dramas humanos através dos reality shows (que não tenho tempo nem estômago para acompanhar, leio somente os comentários das redes sociais e escuto com atenção conversas dos meus colegas de trabalho).

Esta semana tivemos uma cena de choro e ressaca moral de uma participante após ter tido relações sexuais com um colega do programa apresentado pelo Pedro Bial, aquele ser patético que baba o ovo dos participantes masculinos indiscriminadamente.  A tal moça, acordando após a noite tumultuosa sob o famoso edredon, caiu em prantos ao escutar uma música que lhe recordou o ex-namorado, causando revolta no companheiro de cama, que passou a evitá-la, o que aumentou ainda mais a carência e sensação de abandono da tal (detalhe: minha colega de trabalho aqui ao lado está me contando que houve replay esta noite).

Como disse a advogada de defesa com ares de bruxa má do Lidemberg, condenado ontem a 98 anos e dez meses de prisão pelo assassinato da ex-namorada menor de idade, nós, enquanto sociedade, somos todos culpados: do assassinato da Eloá e também da confusão pós sexo da Laísa. 

Não conseguem conectar os dois casos? Explico: a tal Laísa, sozinha  na mansão com seus dramas e necessidades, tem um homem que aparentemente ama fora, um parceiro de edredon dentro, e não consegue decidir se estando com um, trai outro, e/ou vice-versa, o de fora pensa que ela é uma mundana, o de dentro uma indecisa, ambos já se deram conta de que ela não valhe tanto assim a pena, de modo que não lhe resta muito senão as lágrimas e a incapacidade de analisar racionalmente as relações e se sentir confortável para gozar sua liberdade sexual durante o confinamento. Já a Eloá, com um namorado assumidamente violento apresentado pelo irmão mais velho, tratado como membro da família pelos demais parentes, não aceitando o término do relacionamento pela menina, a mantém com refém e a tortura por horas, até matá-la em um “impulso”, após a entrada súbita da Polícia Militar.

Entenderam agora onde entra a sociedade? Espero que sim. Vivemos em um contexto no qual o que mais dá status a uma mulher… é ter um homem! Bem vindos de volta ao século XVII!  Estudo, carreira, status econômico, nada, o que a faz respeitada diante dos demais é estar ao lado de um carinha, seja ele bacana, um zé mané, psicótico e tudo o que está no meio. Um exemplo? Coloque no seu Facebook um comentário indicando realização de meta pessoal, como “finalmente, casa própria” ou “pós graduação concluida”. Você terá no máximo alguns “Curti”. Agora, atualize seu status de relacionamento para “em um relacionamento sério” ou “casada” e chovem comentários, perguntas, e-mails pessoais…! Gente com quem você não conversa há anos vem te cumprimentar e quer conhecer o “bofe”. Incrível. Agora sim você é adulta, popular, boa influência! 

Só neste contexto, são plausíveis ambos os cenários, de uma menina namorando um rapaz violento, com consentimento da própria família, e a ressaca moral da particpante do reality show, que não aguenta permanecer no confinamento sem se envolver com alguém, mas tampouco se desvicula do que ficou para além dos muros… Ela chora, embora não compreenda a situação da sua intimidade, que não é clara nem a ela própria, mas já é adulta e permanece viva e saudável – está em melhor situação, portanto, que a adolescente assassinada. São Paulo, rumo ao século XVIII!

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