Salman Khan e a geração The Big Bang Theory

Ok, concordo, antes que me bombardeiem com comentários como “reaça”, “fascista” e “Pedrita”, já admito, eu sou uma pessoa de perfil reacionário SIM.

Não que seja avessa a novas tecnologias e simpáticas modernidades – muito pelo contrário, sábados à tarde todos podem me encontrar no Skype rescendendo a Victoria´s Secret (nota: esses nerds têm que inventar logo um aplicativo capaz de transmitir odores). Mas tenho tolerância baixíssima para certos pseudoavaços na Educação, que gosto de classificar como CCPSNP  (charlatanismos corroborados por seres não pensantes).

Não é novidade a desvalorização do professor na nossa sociedade. Tampouco é inédito esse discurso no qual a falta de interesse dos alunos no processo de ensino/aprendizado se deve à falta de motivação transmitida pelo profissional da Educação. Quem mora em São Paulo já teve o (des)prazer de ver inúmeros hispanohablantes oferecendo aulas particulares de Espanhol “com nativo” a preços módicos, como se a mera nacionalidade fosse requisito que supre escolaridade, didática e formação específica em ensino de língua estrangeira, sem contar esse povo daqui mesmo que faz um intercâmbio qualquer e depois vira magicamente professor de inglês.

Agora, a Veja desta semana apresentou mais um item a essa classe de pseudoeducadores que buscam não só usurpar os postos dos profissionais da área, mas mais importante ainda, ENSINÁ-LOS a desempenharem melhor suas funções. Salman Khan, um gênio da informática com ar de personagem do seriado The Big Bang Theory, graduado pelo renomado instituto norteamericano MIT, revolucionou as discussões sobre novas linguagens de ensino ao postar seus tutoriais no Youtube e, diante do imenso êxito dos mesmos, fundar a Khan Academy, um site que visa, ambiciosamente, ” Cobrir todos os assuntos, de graça“.

Não pretendo problematizar o âmbito financeiro, muito embora o senhor em questão resida no Vale do Silício e o próprio Bill Gates tenha doado a módica quantia de um milhão e meio de dólares recentemente para apoiar sua nobre iniciativa. Vou levantar a minha bandeira, a Educação. O tal gênio é formado em Matemática, Ciências e Engenharia; que ensine, portanto, Matemática, Ciências e Engenharia. Tudo estaria bem se a proposta do indivíduo não fosse ensinar, ele próprio, TUDO, o que eu deduzo que se estenda desde a Escrita Cuneiforme até Programação Neurolinguística. E, melhor ainda, em dez minutos no máximo para cada assunto!

Não que eu seja contra ajudas esporádicas a estudantes que necessitem de mais atenção, muito pelo contrário, que triste destino teriam determinados alunos sem aquele coleguinha simpático, um primo mais velho e, em muitos casos, os próprios pais, sobretudo se pensarmos na impossibilidade do professor de assistir cada aluno individualmente. Eu disse e repito: IMPOSSIBILIDADE. Ao contrário do que dizem esses manuais para concursos públicos para professores, NÃO, não é humanamente possível dar uma atenção individual para turmas com em média 40 alunos por sala de aula, em aulas de 50 minutos e uma grade cheia, sem contar o tempo para preparar aulas, corrigir redações, provas, exercícios e N outras tarefas burocráticas obrigatórias aos profissionais da Educação.

O que mais me revoltou ao ler a matéria de capa da revista de maior circulação deste país é o caráter de “o futuro da Educação” concedido ao simpático nerd que apresenta seu inovador propósito como unicamente altruísta. Oras, ele até pode ser o heroi dessa geração fã do dr. Sheldon Cooper (pelo qual eu sou notoriamente apaixonada), mas maior heroi ainda é aquele individuo que tem a coragem e a presença de espírito de estar, em carne e osso, diariamente em uma sala de aula, encarar estudantes que muitas vezes o ignoram/ofendem/desmerecem, cumprir com toda a rotina burocrática própria do professor, buscar modos diferentes de “motivar”o interesse do aluno SEM descumprir normas da instituição, ser muitas vezes o único referencial de adulto responsável de alguns estudantes, procurar atualizações de sua área e…fazer tudo isso com salários que estão sempre no piso do profissional com Ensino Superior!

Muito bem, dr. Khan. Já que o senhor é tão avesso ao tradicionalismo no Ensino, vamos para um modernismo muito em assonância com a juventude atual? “Ado, ado, ado. Cada um no seu quadrado!”  Porque eu não quero aprender sobre a Revolução Francesa com sua voz de barítono e seus quadradinhos em dez minutos, não depois que li Eric Hobsbawn, logo, deduzo que o senhor também não vai querer me ver pisando no seu quadrado ensinando Aritmética no Skype ou no Youtube aos sábados (nota: Bill Gates provavelmente não pagaria um milhão e meio de dólares para apoiar minha nobre causa, mas por acaso eu sei que o Mark Zuckenberg tem interesse em ampliar os horizontes…)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: